sábado, 28 de agosto de 2010

O Porco e o Milhafre


O Porco e o Milhafre eram dois inseparáveis amigos. O porco invejava as asas do Milhafre e insistia contínuamente com o amigo para que lhe arranjasse umas iguais para voar também.

O Milhafre dispôs-se a fázer-lhe a vontade. Conseguiu arranjar penas de outra ave e, com cera, colou-as nos ombros e nas pernas do seu amigo Porco. Este ficou radiante e começou a voar ao lado do seu amigo Milhafre.

Quis acompanhá-lo até às grandes alturas, mas a cera começou a derreter-se com o calor e as penas foram caindo uma a uma. À medida que as penas se despegavam, ía o porco descendo, contrariado. Quando as penas acabaram de se soltar, o porco caiu e bateu no chão com o focinho. E com tanta força bateu, que este, ficou achatado.

Zangou-se o Porco com o Milhafre dizendo que tinha querido matá-lo, porque grudara mal as asas.

Desde essa ocasião deixou de ser amigo do Milhafre e, quando o vê pairar no alto, dá um grunhido e olha para ele desconfiado. E aqui está a razão porque o Porco tem o focinho achatado e nunca mais quis voar.



Conto africano

O leão e os gnus



Uma grande fome ocorreu e diversos animais morreram, deixando o Leão faminto por não encontrar o que caçar. Depois de muito andar, chegou até um campo coberto por capim verde e viu um casal de Gnus. Tamanha fome, nem se preocupou em espreitar e atacou. O Gnu, ao ver o Leão, disse:

- Espere majestade. Sabia que somos os últimos gnus desta região. Quando me matar ou matá-la, não haverá nenhum outro e em poucos dias estará com fome novamente. Mas se nos deixar vivos, em poucos meses, teremos uma ninhada de gnus e poderemos encher a região de presas novamente.

O Leão ponderou e disse:

- Mas até lá, como irei sobreviver?

- Ora, faça como nós. Veja que grama verde, esmeralda, brilhante, fresca e agradável. Se você fizer um pequeno esforço, comendo-a, poderá suportar a espera.

O Leão concordou e começou a ruminar. Os gnus visitavam-no diariamente, sempre enaltecendo as qualidades do repasto. Na primeira semana o Leão sofria, torcendo o focinho quando se alimentava, sonhando com um bom pedaço de carne crua. Na segunda, já dava de ombros, resignado com o seu destino. Quando finalmente notou os jovens gnus correndo, rolou na grama e pensou:

- Eu, correr e caçar? Quando a grama se dobra a minha vontade, servida para meu jantar?

E assim, ficou o Leão, pastando feito um Gnu.



Fonte: Fábulas de Paratahan.

O Rato do campo e o rato da cidade




Um rato do campo tinha por amigo um outro da cidade, e o convidou para que fosse comer na campanha. Mas como só podia oferecer-lhe trigo e ervas, o rato da cidade lhe disse:

- Sabes amigo, que levas uma vida de formiga? Por minha vez, possuo bens em abundância. Vem comigo e a tua disposição os terás.

Partiram ambos para a cidade. Mostrou o rato da cidade a seu amigo trigo e legumes, figos e queijo, frutas e mel. Maravilhado, o rato do campo bendizia seu amigo de todo o coração e renegava sua má sorte. Enquanto assim se divertiam, um homem de repente abriu a porta. Espantados pelo ruído os dois ratos de lançaram temerosos a um buraco. Voltaram logo a buscar figos secos, porém outra pessoa entrou no lugar e, ao vê-la, os dois se precipitaram novamente atrás de um toco para se esconder. Então o rato do campo, esquecendo de sua fome, suspirou e disse ao rato da cidade:

- Adeus, amigo, vejo que comes até te fartar e que estás muito satisfeito; porém, é a preço de mil perigos e constantes temores. Eu, por minha vez, sou um pobretão e vivo mordiscando a cevada e o trigo, mas sem ter que fugir nem ter temores sobre nada.

É tua a decisão de escolher dispor de certos luxos e vantagens que sempre vão unidos a sustos e dificuldades, ou viver um pouco mais austeramente, mas com serenidade.


Fábula de Esopo.

O Médico-Fantasma




Esta história tem sido contada de pai para filho na cidade de Belém do Pará. Tudo começou numa noite de lua cheia de um sábado de verão. Dois garotos conversavam sentados na varanda da casa de um deles.

- Você acredita em fantasma? - perguntou o mais novo.

- Eu não! -disse o outro.

- Acredita sim! -insistiu o mais novo.

- Pode apostar que não -replicou o outro. -Tudo bem. Aposto minha bola de futebol que você não tem coragem de entrar no cemitério à noite.

- Ah, é? -disse o garoto que fora desafiado. -Pois então vamos já para o cemitério, que eu vou provar minha coragem. Assim, os dois garotos foram até a rua do cemitério. O portão estava fechado. O silêncio era profundo. Estava tão escuro ... Eles começaram a sentir medo.

Para ganhar a aposta, era preciso atravessar a rua e bater a mão no portão do cemitério. O garoto que tinha topado o desafio correu. Parou na frente do portão e começou a fazer caretas para o amigo. Depois se encostou no portão e tentou bater a mão nele. Foi quando percebeu que ela estava presa.

- Socorro! Alguém me ajude! -ele gritou, desmaiando em seguida.

Nisso, apareceu um velhinho vindo do fundo do cemitério, abriu o portão e chamou o outro menino.

- Seu amigo prendeu a manga da camisa no portão e desmaiou de medo. Coitadinho, pensou que algum fantasma o estivesse segurando.

O garoto reparou que o velhinho era muito magro, quase transparente.

- Obrigado. Como é que o senhor se chama?

- Eu sou o médico daqui. Vou acordar seu amigo.

O velhinho passou a mão na cabeça do menino desmaiado e ele despertou no mesmo instante.

- Vão para casa meus filhos - ele disse. -Já passou da hora de dormir.

No dia seguinte, os meninos foram procurar o velhinho para agradecer-lhe a ajuda. Mas não o encontraram, nem no cemitério, nem em lugar nenhum. E foi assim que ambos perderam o medo de fantasma, quando perceberam que nem todos os seres misteriosos fazem o mal. Pelo contrário, podem até ajudar. Como aquele médico, que nunca mais apareceu.


(História do folclore brasileiro)

Seu Zé no tribunal



Seu Zé, mineirinho, pensou melhor e decidiu que os ferimentos que sofreu num acidente de trânsito há semanas eram sérios o suficiente para levar o dono do outro carro ao tribunal.

No tribunal, o advogado do réu começou a inquirir seu Zé:

- O Senhor não disse na hora do acidente: "Estou muito bem"?

E seu Zé responde:

- Bão, vou lhe contá o que aconteceu. Eu tinha acabado di colocá minha mula favorita na caminhonete...

- Eu não pedi detalhes! - interrompeu o advogado. Só responda à pergunta! O senhor não disse na cena do acidente: "Estou muito bem"?

- Bão, eu coloquei a mula na caminhonete e tava deceno a rodovia...

O advogado interrompe novamente e diz:

- Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos aqui. Na cena do acidente este homem disse ao patrulheiro rodoviário que estava bem. Agora, várias semanas após o acidente ele está tentando processar meu cliente, e isso é uma fraude. Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda à pergunta?

Mas, a essa altura, o Juiz estava muito interessado na resposta de seu Zé e disse ao advogado:

- Eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer.

Seu Zé agradeceu ao Juiz e prosseguiu:

- Como eu tava dizeno, coloquei a mula na caminhonete e tava desceno a rodovia quando uma picapi atravessô o sinar vermeio e bateu na minha caminhonete bem na laterar. Eu fui jogado fora do carro prum lado da rodovia e a mula foi jogada pro ôtro lado. Eu tava muito firido e num podia mi movê. De quarqué forma, eu pudia orvi a mula zurrano e grunhino e, pelo baruio, eu pude percebê que o estado dela era muito ruim.

E continuou falando o Seu Zé:

- Logo dispois do acidente, o patruiero rodoviário chegô no locar. Ele orviu a mula gritano e zurrano e foi até onde ela tava. Depois de dá uma oiada nela, ele pegô a arma e atirô bem nos óio do animar. Então, o policiar atravessô a estrada com sua arma na mão, oiô pra mim e disse:

-"Sua mula estava muito mal e eu tive que atirar nela. Como o senhor está se sentindo?"
E olhando para o Juiz, o Seu Zé perguntou:

- E o sinhô, o quê que o sinhô falava meritisso???!!!

Os Sons da Floresta


No século II depois de Cristo, o rei Ts’ao mandou seu filho, o príncipe T’ai, ir estudar no templo com o grande mestre Pan Ku. O objetivo era preparar o príncipe para suceder o pai no trono e ser um grande administrador.

Quando o príncipe chegou ao tempo, o Mestre Pan Ku logo o mandou sozinho à floresta de Mingli. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever os sons da floresta. Passado o prazo,T’ai retornou e Pan Ku lhe pediu para descrever os sons de tudo aquilo que tinha conseguido ouvir.

Mestre, disse o príncipe, pude ouvir o canto dos cucos, o roçar das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo suave na grama, o zumbido das abelhas, e o barulho do vento cortando os céus.

Quando T’ai terminou, o mestre mandou-o de volta à floresta para ouvir tudo mais que fosse possível. T’ai ficou intrigado com a ordem do mestre. Ele já não havia feito o suficiente?

Por longos dias e noites, o príncipe se sentou sozinho na floresta, ouvindo. Não conseguiu distinguir nada de novo, além daqueles sons já mencionados ao mestre Pan Ku.

Mas persistiu. Então, certa manhã, sentado entre as árvores da floresta, começou a discernir sons muito sutis, diferentes de todos que ouvira antes. Ele agora, não só ouvia, mas escutava.

Quanto mais atenção prestava, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz, que pensou:

- Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu escutasse!

Sem pressa, o príncipe passou horas ali, ouvindo e escutando, pacientemente. Queria ter a certeza de que estava no caminho certo.

- Quando T’ai retornou ao templo, o mestre lhe perguntou o que mais tinha conseguido escutar:

“Mestre, quando prestei mais atenção, pude ouvir o inaudível – o som das flores se abrindo, do sol aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da manhã”.

O mestre acenou com a cabeça em sinal de aprovação:

- “Ouvir o inaudível é ter disciplina para se tornar um grande administrador”, observou Pan Ku. “Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas, um administrador pode inspirar confiança a seu povo, entender o que está errado e atender às reais necessidades dos cidadãos. A morte de um país começa quando os líderes ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem mergulhar fundo na alma das pessoas para ouvir seus sentimentos, desejos e suas reais opiniões”.

Foi assim que T’ai se tornou um sábio e afetuoso rei.

A Pereira da Tia Miséria


Havia no princípio do mundo uma velhinha muito pobre e muito infeliz: era conhecida pelo nome de Tia Miséria. Só possuía uma casinha arruinada e uma pereira no quintal. Tudo sofria com paciência e resignação, mas só uma coisa não desculpava, nem perdoava: que os meninos da vizinhança subissem na pereira e lhe comessem as peras. Seria capaz de dá-las todas sem provar uma, mas indignava-se contra os que as roubavam.

Uma noite bateu-lhe à porta um pobrezinho, quase morto de fome e lhe pediu comida e pousada por uma noite. Fazia muito frio e Tia Miséria acomodou-o perto do fogão e deu a ele a migalha de pão que reservava para si. No dia seguinte despediu-se o pobre e disse-lhe que pedisse o que quisesse.

- Só peço que as pessoas que subirem à minha pereira não possam descer sem o meu consentimento – respondeu a velhinha.

- Assim será – respondeu o mendigo.

No ano seguinte, quando estavam madurinhas as primeiras peras, Tia Miséria chegou ao quintal e encontrou três garotos em cima da pereira.

- Ó Tia Miséria, perdoe-nos pelo amor de Deus! Tire-nos daqui, não podemos descer.

- Ah, é? Pois vocês diziam que não eram os ladrões das minhas peras! Pois tomem isso e mais isso! Disse Tia Miséria dando uma sova nos meninos com uma vara. Desta vez vou permitir que desçam, mas se voltarem, já sabem: hão de ficar aí por muitos anos!

E os garotos desceram e não mais voltaram à pereira.

Até que em uma noite chuvosa, bateram-lhe à porta.

- Já vou, já vou! Gritou Tia Miséria.

Era uma mulher de horrendo aspecto, vestida de negro, com as asas negras nos ombros e nos pés.

- O que... o que... quer? - Perguntou Tia Miséria a tremer.

- Tenha uma boa e santa noite, Tia Miséria.

- Você me conhece? Perguntou assombrada.

- Vamos, Tia Miséria. Chegou a sua hora.

Foi então que Tia Miséria percebeu a foice debaixo da capa da estranha criatura. Nesse momento, se deu conta de que tinha aberto a porta para ela... ela mesma... a MORTE!

- Sou a Morte: venho buscar-te e estou com pressa.

- Já? Pois nem ao menos pode me dar um ano de espera?

- Não pode ser - respondeu a Morte.

- Faça-me ao menos um último favor: suba à minha pereira e colha-me a última pera que me resta. Quero comê-la, visto que é a última. Enquanto isso, vou me preparando para a partida.

- Tudo bem, mulher, mas anda rápido!

A Morte subiu à pereira, colheu a pera, mas não pôde descer. Pôs-se a chamar a velhinha. Esta respondeu: “Tem paciência, maldita, pois aí ficarás por todos os séculos. És má, tens feito muitas desgraças, roubando muitos pais aos seus filhos pequeninos...”

E a Morte ficou em cima da pereira durante dias, semanas, meses.

- Por onde anda a morte? Perguntavam os velhinhos e os doentes terminais nos hospitais.

Depois de um ano, e depois de muita procura, Tia Miséria percebeu, na frente da sua porta, um comitê composto de padres que se queixavam de que não havia enterros, de médicos enfurecidos com o pouco profissionalismo da morte: uma coisa era alargar a vida, outra muito diferente era estender a dor. Ali estavam também escrivães e advogados que se lastimavam de não ter inventários, de donos de funerárias que reclamavam da queda das vendas de caixões; enfim, eram todos aqueles que vivem da morte do próximo. Todos pediam à velha que autorizasse a Morte a descer da pereira, mas Tia Miséria respondia: “Não quero, não quero e não quero”!

Falou então a Morte do alto da pereira e fez com a velha um trato: se a deixasse descer, pouparia sua vida enquanto o mundo fosse mundo. A velhinha consentiu e a Morte desceu. Saiu correndo dali com a promessa de nunca mais bater à porta de Tia Miséria. Mas compensou o tempo perdido: nunca morreram tantos em tão pouco tempo.

É por isso que enquanto o mundo for mundo a Miséria existirá sobre a Terra.



Conto tradicional português, recolhido por Ataíde Oliveira