domingo, 29 de agosto de 2010

O ANJO SURDO


Conta-se que uma mulher vivia sozinha e muito se lamentava de solidão e nenhuma companhia. Ninguém jamais aparecia em sua casa.

Certa manhã, chovia muito, e alguém bateu à sua porta: era um pequeno homem, tremendo de frio, molhado da cabeça aos pés. Vendo o visitante tão inesperado, imediatamente mandou que ele entrasse.

Ali, com as vestes pingando, ele ouviu a mulher que por mais de uma hora lamentou sua solidão e falta de companhia. Ela não lhe ofereceu roupas secas ou algo quente para se aquecer, tão envolvida que estava em suas próprias queixas. Ele não tirava os olhos dos seus lábios em movimento ansioso, contínuo e disparado.

Cessada a chuva, ele fez menção de sair da casa, no que a mulher se inquietou:

"Espere! Nem sei seu nome! Você voltará? "

Ao que o homem reagiu, estendendo-lhe um papel totalmente seco, onde se lia:

"Sou o Anjo Surdo. Só posso ouvir corações. Trago o remédio que cura a solidão, fazendo nascer amizades. Seu efeito não se manifesta naqueles que só falam de si e pensam apenas em si próprios."

Isto dito, desapareceu...e nunca mais alguém bateu naquela porta.

DUAS ASAS


Muito tempo atrás...depois do mundo ser criado e da vida completá-lo... Houve num dia, numa tarde de céu azul e calor ameno, um encontro entre Deus e um de seus incontáveis anjos. Acredita?

Deus estava sentado, calado, sob a sombra de um pé de jabuticaba. Lentamente, sem pecado, Deus erguia suas mãos e colhia uma ou outra fruta. Saboreava sua criação negra e adocicada. Fechava os olhos e pensava. Permitia-se um sorriso piedoso. Mantinha seu olhar complacente.

Foi então que das nuvens um de seus muitos arcanjos desceu e veio em sua direção. Já ouviu a voz de um anjo? É como o canto de mil baleias. É como o pranto de todas as crianças do mundo. É como o sussurro da brisa. Ele tinha asas lindas... brancas, imaculadas.

Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:

"Senhor... visitei sua criação como pediu. Fui a todos os cantos. Estive no sul, no norte, no leste e oeste. Vi e fiz parte de todas as coisas. Observei cada uma de suas criações humanas. E por ter visto vim até o senhor... para tentar entender. Por quê? Por que cada uma das pessoas sobre a terra tem apenas uma asa? Nos anjos temos duas... podemos ir até o amor que o senhor representa sempre que desejarmos. Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos. Mas os humanos com sua única asa não podem voar. Não podem voar com apenas uma asa..."

Deus, na brandura dos gestos, respondeu pacientemente ao seu anjo:

"Sim... eu sei disso. Sei que fiz os humanos com apenas uma asa..."

Intrigado com a consciência absoluta de seu senhor, o anjo queria entender e perguntou:

"Mas por que o senhor deu aos homens apenas uma asa quando são necessárias duas asas para se poder voar... para se poder ser livre?"

Conhecedor que era de todas as respostas, Deus não teve pressa para falar. Comeu outra jabuticaba, escura e suave. E então respondeu:

"Eles podem voar, sim, meu anjo. Dei aos humanos apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu ou vocês, meus arcanjos... Para voar, meu amigo, você precisa de suas duas asas... Embora livre, sempre estará sozinho. Talvez da mesma maneira que Eu... Mas os humanos... os humanos com sua única asa precisarão sempre dar as mãos para alguém a fim de terem suas duas asas. Cada um deles tem na verdade um par de asas... uma outra asa em algum lugar do mundo que completa o par. Assim eles aprenderão a se respeitar, pois ao quebrar a única asa de outra pessoa podem estar acabando com as suas próprias chances de voar. Assim, meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa... Aprenderão que somente se permitindo amar eles poderão voar. Tocando a mão de outra pessoa em um abraço correto e afetuoso eles poderão encontrar a asa que lhes falta...e poderão finalmente voar. Somente através do amor irão chegar até onde estou...da mesma forma que você, meu anjo. E eles nunca... nunca estarão sozinhos quando forem voar."

Deus silenciou em seu sorriso.

O anjo compreendeu o que não precisava ser dito.

O CAMINHO DO TIGRE


O homem caminhava pela floresta quando viu uma raposa aleijada."Como ela se alimenta?", pensou.Neste momento, um tigre se aproximou com um animal entre os dentes. Saciou sua fome, e deixou o que havia sobrado para a raposa.

"Se Deus ajuda a raposa, irá me ajudar também", refletiu. Voltou para sua casa, trancou-se, e ficou esperando que os Céus lhe dessem comida. Nada aconteceu. Quando já estava ficando fraco demais para sair e trabalhar, um anjo apareceu.

- Por que você resolveu imitar a raposa aleijada? - perguntou o anjo. Levante-se, pegue suas ferramentas, e siga o caminho do tigre!

ANJOS DISTRAÍDOS


Era uma vez um anjinho, muito distraído, chamado Amorel. Ele recebeu uma incumbência de Deus:

- Amorel, acabo de inventar os humanos, eles estão classificados como homem e mulher. Cada um tem seu par e já estão todos alinhados de par em par. Pegue esta bandeja de humanos e leve para que eles habitem a Terra.

Amorel ficou contente, pois há muito tempo o Senhor não o chamava para tão nobre trabalho. O anjinho pegou a bandeja e ao virar uma esquina lá no céu, trombou com uma anjinha chamada Amanda. A bandeja voou longe, e todos os casais de humanos se misturaram. Amorel e Amanda ficaram desesperados e foram contar para Deus o ocorrido.

O Senhor falou:

- Vocês derrubaram, vocês juntarão!

Porém, parece que Deus se esqueceu que os anjinhos eram muito distraídos. E é por isso que a cada dia os casais se juntam e se separam.

Os dois anjinhos trabalham incessantemente para que os casais originais se encontrem.

O trabalho é muito difícil, tanto é que por muitas vezes eles juntam casais errados, pois os humanos espalhados ficam inquietos e cobram o serviço dos anjinhos o tempo todo.

Quando os humanos se mostram muito desesperados, os anjinhos unem dois desesperados, mas logo depois percebem o engano e os separam. E, por muitas vezes, está separação é brusca, pois não se tem tempo a perder.

Recebi um bilhete dos dois anjinhos e vou mandar pra você agora:

"Se você é um humano, queremos pedir desculpas pela nossa distração, pois errar não é só humano!

Estamos trabalhando com empenho, porém, sempre contando com a ajuda de vocês. Não se desesperem, mas também não se isolem, tentem se mostrar realmente quem é cada um de vocês, pois à medida que cada um mostrar o que é de verdade, vai tornar o nosso trabalho mais fácil.

Aproveitamos a oportunidade para nos desculpar pelas separações abruptas, sabemos que elas geram muito transtorno, mas se nós o separamos de alguém, é por que em algum canto vimos alguém bem mais parecido e, por isso, precisamos isolá-los para facilitar o encontro."

O PREÇO DO PARAÍSO


Em Cracóvia, na Polônia, havia um homem muito pobre, que não conseguia sequer arranjar dinheiro para sustentar sua família. Quando chegou o Natal, envergonhado de não poder dar nenhum presente à sua mulher, resolveu vender o único animal que possuía - uma galinha, que lhe dava todos os dias pelo menos um ovo para comer. Imaginava que podia comprar algo de belo, mas naquele mesmo dia ela caiu doente, e o homem teve que usar quase todo o dinheiro em remédios. Desesperado, foi procurar o padre do seu bairro.

- Sobrou algo da venda? - perguntou o padre.

- Dez centavos.

- Tudo que vem de Deus tem sua razão de ser. No caminho de volta, passe no mercado e compre para sua mulher a primeira coisa que custar dez centavos. Ela ficará alegre com o presente.

O homem agradeceu, e foi até o mercado. Viu lindas jóias e pensou: "Deus me fará encontrar algo barato".

Aproximou-se da barraca e falou com o comerciante:

- Tenho dez centavos: o que posso comprar?

- Dez centavos! Estou diante de um maluco! A jóia mais barata vale cem moedas de ouro!

- Mas o padre disse que eu conseguiria comprar algo.

Como não havia movimento àquela hora, o comerciante resolveu se divertir:

- Na verdade, eu estava pensando em vender meu lugar no paraíso. E custa exatamente dez centavos!

Sem hesitar, o homem tirou o dinheiro, e o comerciante escreveu em um papel de embrulho: "Vale um lugar no paraíso." Os dois apertaram as mãos, certos de que tinham feito um bom negócio.

Naquela noite, o comerciante, dando gargalhadas, contou a história à sua esposa. Ela reagiu, histérica:

- Jamais viverei com alguém que engana os pobres, e justamente na época de Natal! Saia daqui, e só volte quando tiver este pedaço de papel de novo em suas mãos!

O comerciante, aterrorizado, saiu e começou a procurar o homem por toda a cidade, até que o encontrou.

- Na verdade, eu o enganei - disse. - Aqui estão seus dez centavos, por favor, me devolva o papel.

- Mas eu estou satisfeito! Comprei porque quis, e minha mulher ficará contente com um lugar garantido nos céus!

- Está bem: então já estará ganhando dinheiro, porque lhe pagarei vinte centavos por este papel.

- Não se preocupe, o senhor não me enganou, e estou satisfeito.

- Vou lhe fazer uma oferta que não poderá recusar: lhe darei uma moeda de ouro por este pedaço de papel.

O homem, porém, não se impressionou:

- Uma moeda não resolve meus problemas. Preciso de dez moedas de ouro, porque é isso que ela merece; poderá comprar todos os presentes que deseja, e que nunca pude lhe dar.

O comerciante levou um susto: dez moedas! Mas era pagar isso, ou não poder voltar. Pagou, pegou o papel, e correu para casa.

- Dez moedas de ouro por este papel sem valor! - disse para a esposa. - Aqui está o seu presente de Natal, e não me peça nada mais!

Neste momento, um anjo apareceu para a mulher:

- Quando o seu marido estava disposto a vender seu lugar no paraíso por dez centavos, ele não custava nem um centavo sequer. Mas quando ele se dispôs a comprar de volta por dez moedas de ouro, apenas por amor à você, saiba que o lugar passou a valer muito mais que isso.

"Deus coloca as pessoas certas, nas horas certas, para que se ajudem mutuamente. Graças a você, a alegria da noite de Natal será maior nos céus - porque a alma do seu marido foi salva; também será maior na terra, porque um homem pobre pôde dar dez moedas de ouro para sua esposa. Por tudo isso, agora você merece também sua recompensa."

E transformou o pedaço de papel em uma esmeralda, que até hoje pode ser vista em uma casa na região de Grabarka, na fronteira com a Bielo-Russia.

(Baseada em uma lenda judaica)

TODO MUNDO TEM UM ANJO CHAMADO.


Uma criança, pronta para nascer, perguntou a Deus:

"Dizem-me que estarei sendo enviado à Terra amanhã. Como eu vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?"

Deus: "Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Ele o Estará esperando e tomará conta de você".

Criança: "Mas diga-me: aqui no céu eu não faço nada a não ser cantar e sorrir, o que é suficiente para que eu seja feliz. Serei feliz lá?"

Deus: "Seu anjo cantará e sorrirá para você e... A cada dia, a cada instante, você sentirá o amor de seu anjo e será feliz".

Criança: "Como poderei entender quando falarem comigo se eu não conheço a língua que as pessoas falam?"

Deus: "Com muita paciência e carinho, seu anjo lhe ensinará a falar".

Criança: "E o que farei quando eu quiser Te Falar?"

Deus: "Seu anjo juntará suas mãos e lhe ensinará a orar".

Criança: "Eu ouvi que na Terra há homens maus. Quem me protejerá?"

Deus: "Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arriscar a própria vida".

Criança: "Mas eu serei sempre triste porque não Te verei mais".

Deus: "Seu anjo sempre lhe falará sobre Mim e lhe ensinará a maneira de vir a Mim, e Eu estarei sempre dentro de você".

Nesse momento, havia muita paz no Céu, mas as vozes da Terra já podiam ser ouvidas. A criança, apressada, pediu novamente:

"Oh, Deus, se eu estiver a ponto de ir agora, diga-me, por favor, o nome do meu anjo!".

Deus: "Você chamará seu anjo de MÃE"!!!"

LENDA DA FLOR DE LÓTUS


Certo dia, num tranqüilo lago solitário, em cuja margem se erguiam frondosas árvores, com perfumadas flores de mil cores, e coalhadas de ninhos, onde aves canoras chilreavam, encontraram-se quatro elementos irmãos: o Fogo, o Ar, a Água e a Terra.

- Quanto tempo sem nos vermos em nossa nudez primitiva - disse o Fogo cheio de entusiasmo, como é de sua natureza.

- É verdade - disse o Ar. - É um destino bem curioso o nosso. À custa de tanto nos prestarmos para construir formas e mais formas, tornamo-nos escravos de nossa obra e perdemos nossa liberdade.

- Não te queixes - disse a Água -, pois estamos obedecendo à Lei, e é um Divino Prazer servir à Criação. Por outro lado, não perdemos nossa liberdade. Tu corres de um lado para outro, à tua vontade; o irmão Fogo entra e sai por toda parte, servindo à vida e à morte. Eu faço o mesmo.

- Em todo o caso, sou eu quem deveria me queixar - disse a Terra - pois estou sempre imóvel e, mesmo sem minha vontade, dou voltas e mais voltas, sem descansar no mesmo espaço.

- Não entristeçais minha felicidade ao ver-nos - tornou a dizer o Fogo - com discussões supérfluas. É melhor festejarmos estes momentos em que nos encontrarmos fora da forma. Regozijemo-nos à sombra destas árvores e à margem deste lago, formado pela nossa união.

Todos o aplaudiram e se entregaram ao mais feliz companheirismo. Cada um contou o que havia feito durante sua longa ausência, as maravilhas que tinham construído e destruído. Cada um se orgulhou de se haver prestado para que a Vida se manifestasse através de formas sempre mais belas e mais perfeitas. E mais se regozijaram, pensando na multidão de vezes que se uniram fragmentariamente para o seu trabalho.

Em meio de tão grande alegria, existia uma nuvem: o homem. Ah! Como ele era ingrato. Haviam-no construído com seus mais perfeitos e puros materiais, e o homem abusava deles, perdendo-os. Tiveram desejo de retirar sua cooperação e privá-lo de realizar suas experiências no plano físico. Porém a nuvem dissipou-se e a alegria voltou a reinar entre os quatro irmãos. Aproximando-se o momento de se separarem, pensaram em deixar uma recordação que perpetuasse, através das idades, a felicidade de seu encontro. Resolveram criar alguma coisa especial que, composta de fragmentos de cada um deles, harmonicamente combinados, fosse também a expressão de suas diferenças e independência, e servisse de símbolo e exemplo para o homem. Houve muitos projetos que foram abandonados por serem incompletos e insuficientes. Por fim, refletindo-se no lago, os quatro disseram:

- E se construíssemos uma planta, cujas raízes estivessem no fundo do lago, a haste na água e as folhas e flores fora dela? - A idéia pareceu digna de experiência.

- Eu porei as melhores forças de minhas entranhas - disse a Terra - e alimentarei suas raízes.

- Eu porei as melhores linfas de meus seios - disse a Água - e farei crescer sua haste.

- Eu porei minhas melhores brisas - disse o Ar - e tonificarei a planta.

- Eu porei todo o meu calor - disse o Fogo - para dar às suas corolas as mais formosas cores.

Dito e feito. Os quatro irmãos começaram a sua obra. Fibra sobre fibra foram construídas as raízes, a haste, as folhas e as flores. O sol abençoou-a, e a planta deu entrada na flora regional, saudada como rainha.

Quando os quatro elementos se separaram, a Flor de Lótus brilhava no lago em sua beleza imaculada, e servia para o homem como símbolo da pureza e perfeição humana. Consultaram-se os astros, e foi fixada a data de 8 de maio - quando a Terra está sob a influência da Constelação de Taurus, símbolo do Poder Criador - para a comemoração que, desde épocas remotas, se tem perpetuado através das idades. Foi espalhada esta comemoração por todos os países do Ocidente, e, em 1948, o dia 8 de Maio se tornou também o "Dia da Paz".