segunda-feira, 30 de agosto de 2010

SONETO DO OLHAR


Que olhar de monja em longa penitência
O olhar daqueles olhos macerados!
Pairava-lhe talvez na morna essência
Uma alma carregada de pecados.

Para que mundos, para que existência,
Tão além desta vida, ei-los voltados!
Ó inacessível, mística dolência
De uns olhos a sonhar outros noivados...

Voz do passado, som que ressuscita!
Olhar tão cheio de palavras mortas
Daqui por certo que não pode ser...

Alma, para me ver, Alma bendita,
Põe-te de luto nessas duas portas
Com uma tristeza de quem vai morrer...

SONETO DAS MÃOS


Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica,
Pairando no ar, num gesto brando e leve,
Que parece ordenar mas que suplica.

Erguem-se ao longe como se as eleve
Alguém que ante os altares sacrifica:
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mas cuja sombra nos meus olhos fica...

Mãos de esperança para as almas loucas,
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...

Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
Cerrando os olhos das visões defuntas...

domingo, 29 de agosto de 2010

ORIGEM DOS ECLIPSES


Vários povos têm mitos e lendas relacionados com os eclipses e os índios brasileiros não são diferentes. Recolhemos alguns mitos sobre os eclipses lunar e solar, contados pelos índios da família tupi-guarani, das regiões norte e sul do Brasil.

Eclipse Lunar:

No início do tempo e do espaço, antes de se fixarem no céu, o Sol e seu irmão mais novo, a Lua, habitavam a Terra, vivendo juntos diversas aventuras. Para os Guarani, tanto o Sol como a Lua são considerados do sexo masculino. Um dia, encontraram Charia, um espírito maléfico, pescando em um rio.

Com o objetivo de importunar Charia, que não tinha percebido os dois irmãos, o Sol mergulhou e mexeu o anzol, imitando um peixe grande. Charia puxou o anzol vazio, caindo para trás. O Sol repetiu o seu gesto por três vezes e em todas elas Charia caiu de costas. "Agora é a minha vez", disse a Lua sorrindo. Então, ela mergulhou e foi deslizando na direção do anzol. No entanto, Charia foi mais rápido: pescou a Lua e a matou com um bastão de madeira. Depois, ele a levou para casa, como se fosse um pescado, para comer com sua mulher.

Quando estavam cozinhando a Lua, o Sol chegou e foi convidado por Charia para comer o peixe. Ele agradeceu dizendo que aceitaria apenas de um pouco de caldo de milho e pediu que não jogassem fora os ossos do peixe pois gostaria de levá-los consigo. Depois, recolhendo os ossos, o Sol levou-os para longe e, utilizando a sua própria divindade, ressuscitou o seu irmão mais novo.

Assim, um eclipse lunar representa a Lua sendo devorada por Charia, sendo que a cor avermelhada é o próprio sangue da Lua que a oculta. A Lua só ressurge em toda a sua plenitude, como lua-cheia, porque o seu irmão mais velho, o Sol, a ressuscita e salva.


Eclipse Solar:

Quando queria comer peixe, o Sol levava seu filho para lavar os pés no rio. Dessa maneira, os peixes ficavam atordoados e fáceis de pegar.

Certo dia, enquanto o Sol e seu filho pescavam, Charia apareceu e pediu emprestado o menino, dizendo que ele também queria pegar alguns peixes. O Sol, sem nada desconfiar, emprestou seu filho. No entanto, Charia levou-o para a floresta e golpeou-lhe o corpo todo como se golpeia o cipó timbó, dando o exemplo do que se faria com o timbó que ficou sendo utilizado como veneno de pescar.

Devido aos golpes, Charia matou o filho do Sol, que ficou furioso, atacando o espírito maléfico. Os dois lutaram muito, derrubando um ao outro. Quando Charia pensava que havia vencido a batalha, o Sol levantou-se novamente afugentando Charia.

As conseqüências dessa luta são, até hoje, os eclipses solares, onde Charia é representado, em geral, por uma onça que tenta devorar o Sol.

A LIÇÃO DO FEITICEIRO


Um feiticeiro africano conduz seu aprendiz pela floresta. Embora mais velho, caminha com agilidade, enquanto seu aprendiz escorrega e cai a todo instante. O aprendiz blasfema, levanta-se, cospe no chão traiçoeiro, e continua a acompanhar seu mestre.

Depois de longa caminhada, chegam a um lugar sagrado. Sem parar, o feiticeiro dá meia volta e começa a viagem de volta.

- Você não me ensinou nada hoje - diz o aprendiz, levando mais um tombo.

- Ensinei sim, mas você parece que não aprende - respondeu o feiticeiro. - Estou tentando lhe ensinar como se lida com os erros da vida.

- E como lidar com eles?

- Como deveria lidar com seus tombos - responde o feiticeiro. - Em vez de ficar amaldiçoando o lugar onde caiu, devia procurar descobrir o que te fez escorregar.

ORIGEM DO ARCO-ÍRIS


Houve uma vez em que as cores do mundo começaram uma disputa entre si. Cada uma reivindicava para si que era a melhor. A mais importante. A mais útil. A favorita...

A cor Verde disse: - Claro que sou a mais importante. Eu sou sinal de vida e de esperança. Eu fui a escolhida para a grama, árvores e folhas. Sem mim, morreriam todos os animais. Examine o campo e verá que sou maioria.

A cor Laranja, estando próxima, colocou a boca no trombone: - Eu sou a cor da saúde e força. Eu posso estar escassa, mas eu sou preciosa porque eu sirvo às necessidades da vida humana. Eu sou levada nas vitaminas mais importantes. Pense em cenouras, abóboras, laranjas e mamões. Eu não fico vadiando o tempo todo, mas quando eu encho o céu ao amanhecer ou ao pôr-do-sol, minha beleza é tão impressionante que ninguém mais pensa em qualquer uma de vocês.

A cor Azul interrompeu: - Você só pensa na terra, mas deve considerar o céu e o mar. A água é a base da vida e é retirada pelas nuvens do mar profundo. O céu dá espaço e paz e serenidade. Sem minha paz, você não seria nada.

A cor Rosa, já cheia de tudo, falou com grande pompa: - Eu sou a cor da realeza e do poder. Reis, chefes e bispos sempre me escolheram, porque eu sou sinal de autoridade e sabedoria. As pessoas não me questionam! Elas escutam e obedecem.

A cor Azul Marinho, muito mais calma que todas as outras, mas da mesma maneira e com muita determinação, disse: - Pensem em mim. Eu sou a cor do silêncio. Vocês nem sempre me notam, mas sem mim todos vocês ficam superficiais. Eu represento o pensamento e a reflexão, crepúsculo e água profunda. Vocês precisam de mim para o equilíbrio e para o contraste, para a oração e para a paz interior.

A cor Vermelha não aguentou por muito tempo e gritou: - Eu governo todos vocês! Eu sou sangue - o sangue da vida! Eu sou a cor do perigo e da coragem. Eu estou disposta a lutar por uma causa. Eu trago fogo, o sangue. Sem mim, a terra estaria tão vazia quanto a lua. Eu sou a cor da paixão e do amor.

Finalmente, a cor Amarela riu: - Você é sempre tão séria! Eu trago risada, alegria e calor para o mundo. O sol é amarelo, a lua é amarela, as estrelas são amarelas. Toda vez que se olha para um girassol, o mundo inteiro começa a sorrir. Sem mim, não haveria nada divertido.

E assim, as cores se ostentavam, cada uma se convencendo de sua superioridade. A disputa estava cada vez mais acirrada, quando, de repente, um flash surpreendente de um trovão iluminou tudo... A chuva verteu implacavelmente. As cores se encolheram de medo, enquanto procuravam ficar mais perto uma das outras.

No meio do barulho, a chuva começou a falar: - Vocês, cores tolas, lutando entre si, cada uma tentando dominar as outras... vocês não sabem que cada cor traz um propósito especial? Nem igual, nem diferente? Dêem as mãos e venham a mim.

Fazendo como lhes fora dito, as cores se uniram e deram-se as mãos.

A chuva continuou: - De agora em diante, quando chover, cada uma de vocês se estirará pelo céu, em um grande arco colorido, para lembrar que se pode viver em paz. Criarão o Arco-Íris; e ele será sempre um sinal de esperança.


E assim, sempre que uma boa chuva lava o mundo, um Arco-Íris aparece no céu, mostrando a amizade e a paz entre as cores que dura até hoje e durará para sempre.

A RAPOSA E O LENHADOR


"Existiu um Lenhador viúvo que acordava às seis da manhã e trabalhava o dia inteiro cortando lenha, e só parava tarde da noite.

Ele tinha um filho lindo, de poucos meses e uma raposa, sua amiga, tratada como bicho de estimação e de sua total confiança.

Todos os dias o lenhador ia trabalhar e deixava a raposa cuidando de seu filho. Todas as noites ao retornar do trabalho, a raposa ficava feliz com sua chegada.

Os vizinhos do Lenhador alertavam que a Raposa era um bicho, um animal selvagem, e portando, não era confiável. Quando ela sentisse fome comeria a criança.

O Lenhador, sempre retrucando com os vizinhos, falava que isso era uma grande bobagem. A raposa era sua amiga e jamais faria isso.

Os vizinhos insistiam: "Lenhador, abra os olhos ! A Raposa vai comer seu filho." - "Quando sentir fome, comerá seu filho !

Um dia o Lenhador, muito exausto do trabalho e muito cansado desses comentários, ao chegar em casa, viu a Raposa sorrindo como sempre e sua boca totalmente ensangüentada... O Lenhador suou frio e, sem pensar duas vezes, acertou o machado na cabeça da raposa... Ao entrar no quarto desesperado, encontrou seu filho no berço dormindo tranqüilamente e ao lado do berço uma cobra morta...

O Lenhador enterrou o Machado e a Raposa juntos.


Se você confia em alguém, não importa o que os outros pensem a respeito, siga sempre o seu caminho e não se deixe influenciar... E, principalmente, não tome decisões precipitadas..."

LENDA DE OSÍRIS


"Há muito tempo... quando ainda não havia o Egito ... apenas bandos de caçadores nômades e selvagens ... existiu um rei-deus chamado Osíris, casado com a propria irmã, a rainha-deusa Ísis. Eles eram deuses bons. Osíris ensinou o povo a viver em paz, a se organizar em cidades. A forjar armas de metais para se defender dos animais selvagens. A cultivar a terra, para dela tirar seu sustento. Ísis, por sua vez, organizou as famílias, livrando-as, através de sua magia, de todos os males e doenças. Era a deusa protetora do lar, das mães e das crianças.

Havia outro deus, chamado Tot, deus da ciência. Ele ensinou o povo a ler e a escrever, pois era o senhor da palavra criadora e mágica. Assim nasceu a civilização egípcia.

Osíris ficou tão feliz com os resultados que resolveu sair pelo mundo, ensinando todos os povos a fazer a mesma coisa, assim como aconteceu no Egito. E partiu, deixando no trono Ísis, sua fiel companheira. Com ele foram dois deuses amigos: Tot e Anúbis, o deus dos mortos. Mas existia no Egito outro deus, chamado Seth, o irmão mais moço de Osíris. Ele não herdara o trono, pois naquele tempo só os primogênitos tinham direito a isso. Cheio de ódio, planejou uma terrível vingança contra o irmão. Quando Osíris voltou, radiante, de sua viagem, Seth ofereceu-lhe um banquete. Então, mandou vir uma grande caixa, ricamente enfeitada, e propôs uma brincadeira: a caixa pertenceria a quem coubesse dentro dela, sem deixar o menor espaço vazio. Todos os deuses convidados tentaram, mas como eram de pequena estatura, sempre sobrava algum espaço. Acontece que Seth havia mandado fazer a caixa do tamanho exato de Osíris, que era alto e forte. Quando Osíris finalmente entrou na caixa, ela serviu perfeitamente. Ato contínuo, Seth a lacrou com chumbo e mandou jogá-la no rio Nilo. Os outros deuses, apavorados, fugiram todos, tomando a forma de animais. Ísis, desesperada, rasgou sua roupa, mas com a ajuda de Tot conseguiu fugir. E, mesmo sabendo que Osíris estava morto, resolveu resgatar seu corpo para sepultá-lo condignamente.

Díficil procura... Por longo tempo, Ísis perambulou pelo Egito. Como não sabiam que se tratava de uma deusa, e estivesse vestida com andrajos, ninguém a queria receber. Seth, por sua vez, sempre vingativo, ordenava que espíritos malignos atrapalhassem seus caminhos... Mas Ísis tinha grande poder, e sua escolta era constituída de sete escorpiões venenosos que a protegiam, como muralha viva, de todos os males. Perguntando aqui e ali, soube por algumas crianças que a caixa, boiando no Nilo, chegara até o mar ... Ísis continuou viagem e, finalmente, chegou à cidade de Biblos. Lá, descobriu que a caixa tinha ancorado junto a uma moita, e esta, por encanto, se transformara numa grande acácia, cujo tronco absorvera a caixa com o corpo de Osíris. A árvore era tão linda e estranha que o próprio rei do lugar mandou que fosse levada como coluna para seu palácio. Ísis resolveu usar sua magia. Então, todas as noites se transformara numa pequena andorinha e ficava rodopiando em torno da coluna, no palácio do rei, enquanto soltava pungentes trinados ... Isso não adiantou muito e ela mudou de tática, voltando à forma de mulher, fez amizade com as criadas da rainha, que iam buscar água no poço. Ficaram tão encantadas e falaram tanto dela que até a rainha quis conhecê-la. Logo, Ísis foi transformada na governante do pequeno príncipe, herdeiro do trono. Mesmo assim, todas as noites, ela ainda se transformava em andorinha e, rodeando a coluna, cantava tristemente para o amado esposo.

Um dia, a rainha entrou inesperadamente no quarto do filho e ficou apavorada: o pequeno berço estava rodeado pelas chamas, enquanto sete escorpiões formavam um círculo agressivo ao seu redor. Os gritos da rainha atraíram o rei e a guarda, mas Ísis, impaciente, apagou o fogo com um simples gesto. Depois contou ao rei e à rainha, assustados, que, em gratidão pela hospitalidade recebida, teria dado a imortalidade ao príncipe, através das chamas purificadoras. Mas, com a entrada da rainha, o encanto se quebrara para sempre. A rainha ficou muito triste, mas o rei se sentiu profundamente honrado de ter dado hospitalidade a uma deusa. E disse a Ísis que pedisse o que quisesse. Na mesma hora, ela pediu a coluna do palácio. Tirou dela a caixa com os restos mortais de Osíris, deixando a árvore como relíquia sagrada para o rei e o povo. Então voltou para sua terra, mas, no caminho, não resistindo á curiosidade, abriu a caixa. Foi tão grande sua dor vendo o que restara de Osíris, que se transformou num falcão e começou a voar em círculos; por milagre, nesse instante, foi fecundada pelo marido morto.

Quando finalmente voltou ao Egito, Ísis, já de volta à sua forma humana, escondeu a caixa nos pântanos, para que ninguém a encontrasse. Mas Seth era um deus maligno. Certa noite, quando caçava nos pântanos, encontrou a caixa com o corpo do irmão. Louco de fúria, esquartejou o corpo em 14 partes que mandou espalhar por todo o Egito.

Não havia terminado o tormento de Ísis. Ela recomeçou sua busca apaixonada, pelo Egito, até que, depois de terríveis fadigas, conseguiu encontrar os 13 pedaços. O outro fora devorado por um esturjão do Nilo. Mas como devolver a vida a Osíris, ressuscitá-lo? Ansiosa, Ísis pediu ajuda a vários deuses, parentes ou amigos: a Néftis, sua irmã e esposa de Seth, mas inocentes de seus crimes, e a Tot e Anúbis. Anúbis embalsamou o corpo, daí surgindo a primeira múmia do Egito. Osíris ressuscitou, mas não pôde mais reinar na Terra, e sim no "lugar que fica além do horizonte ocidental".

Conseguido seu intento, Ísis escondeu-se no pântano, para proteger a vida do seu filho que esperava, contra a vingança de Seth. Quando o menino nasceu, ela lhe deu o nome de Hórus, cujo olho direito era o sol, e o esquerdo era a lua. E se transformava, quando queria, nun grande falcão, que voava livre pelos céus ... Quando Hórus cresceu, tornou-se um valente guerreiro. Reuniu os fiéis súditos de Osíris para vingar o pai ... Travou feroz batalha com Seth, que durou três dias e três noites, da qual Seth saiu gravemente ferido. Quase moribundo e por artes de feitiçaria, Seth setransformou num javali negro que arrancou o olho esquerdo de Hórus ... Nesse instante, a lua parou de brilhar no céu, o que deixou o povo apavorado. A batalha continuava sem fim, até que Ísis, desesperada, pois Seth também era seu irmão, pediu ao filho que desse fim a ela. Hórus, enraivecido, decepou a cabeça da mãe. Nesse instante, Tot, por sua conta, resolveu intervir; deu nova cabeça a Ísis, curou Seth, mas antes exigiu que ele devolvesse o olho esquerdo de Hórus. Depois de duas semanas, a lua voltou a brilhar no céu, para alegria do povo.

Porém, os deuses, descontentes, exigiram que Tot presidisse um julgamento, para decidir quem era o herdeiro de Osíris no trono do Egito. Seth acusava Hórus de ter sido gerado após a morte do pai, ao que Hórus replicava que Seth não merecia confiança, pois sempre agira de má fé. O processo durou oitenta anos. Finalmente, o Divino Tribunal dos deuses decidiu que: o Egito seria dividido em dois: o baixo Egito ficaria com Hórus e o alto Egito com Seth. Isso aconteceu há 13.500 anos antes de Menés ... "

(A lenda foi recolhida por Plutarco - historiador grego que viveu há dois mil anos, no início da era cristã, e reproduzida largamente até agora.)