domingo, 8 de agosto de 2010

ÁFRICA III - (Omolu) - (Sávio Assad)


Pai as chagas consomem o meu corpo,
e caminho não enxergando a luz, estou
perdido neste labirinto de sentimentos
e meus pés doem, calejado, pelo tempo.

Pai esconde meu corpo, já sem forma sobre
suas palhas e acalenta minhas lágrimas,
tira do meu coração a amargura, que nos
faz mais rebeldes, nos dias solitários.

Tu és o dominador das epidemias, das
doenças e da peste. Devolve a saúde
para o meu corpo, para mente e para
meu espírito, deite seu olhar , sobre mim.

Senhor da terra, espalhe a vida pelos
caminhos e com seu xaxará, onde carrega
o segredo deste bálsamo, umedece meus lábios
e me cura as feridas, que já estão sangrando.

Pai a ti dedico minha vida, minha caminhada,
minha fé e minha esperança em dias melhores.
A ti peço, sempre, reforço e vigor , para enfrentar
todos os males e infortúnios do dia-a-dia.

E agradeço,Senhor da terra a sua compreeção
para os problemas que passo e para os caminhos
que percorro, sempre com o pensamento
no Senhor, sempre olhando em sua direção.

TARDES DE MAIO - Carlos Nogueira


As tardes de maio de suave brisa trazem sempre na sua carne a lembrança de outonos que, por estarem longe no tempo, nos parece que foram melhores., Foi numa dessas tardes, por exemplo, que me dei conta do quanto estamos só no planeta, independente da prole, do cortejo de amigos ou das atividades que desesperadamente exercemos para afugentar a temida aventura humana que é a tentativa de ludibriar a morte..Alguns erguem palácios, outros escrevem sagas e odisséia imaginárias. Mas o segredo que descobri numa dessas tardes, que fortaleceu a minha fome de viver foi um gesto de extremo amor escondido na turbulência vibrante do urbano, Em Copacabana, ao aguardar a abertura do sinal , pelo espelho retrovisor, observei um casal de sem –teto que, enquanto dividiam um pedaço de pão, acariciavam um o rosto do outro. A lembrança daquela tarde, didático-afetivamente, disse: amar incondicionalmente é o alimento da existência.

POEMA-ORAÇÃO À OXÓSSI - Carlos Nogueira


A farmácia de Oxossi é a mata
o verde se matizando com o branco
quinta-feira, arco, flexa e ofá
Com Ossaim, pássaros e canto

Uma cidade em reverência,
uma urbana floresta inventa
Debruçada sobre o mar
Sebastião por flexas alvejado
Todo 20 de janeiro
agoniza em morte lenta

Odé
Bitalá Inlé, chicote, couro
Casado com Oxum Pandá
É pai de Logun Edé

Feijão, inhame. axôxô
Oxossi, das matas, caçador
Te saúdo e peço forças

Okê Arô!!
Okê Arô!!

SENHOR DO AXÉ - CarlosNogueira



Com sua haste de ferro
de sete pontas
pássaro pousado no cetro
Renovai a nossa Fé

Guarde nossas matas
da cobiça
Com suas cores verde e rosa
no jambeiro
Quinta-feira
És o senhor do AXÉ

Euê o! Euê o!

A Jurema que tu vistes
Te chamaste
Com ternura
Porque filha é

Sob a chuva
lágrimas lindas
inundando o teu peito com doçura
Pela trilha

No teu corpo
te chamaste
outro tempo
Ossanhe
Euê o! Euê o!
Ès o dono do AXÉ!

PARA OXUM - Carlos Nogueira



No microcosmo de cada ser,
o mesmo vocábulo,
turbilhão de sentidos.

Primavera lavada
razoável metáfora para este dia,
estandarte del sueño,
soledad de la porta-bandeira,
minimalista poesia

Deusa das águas
rios, riachos, cachoeiras e fontes
Amarelo e dourado, tuas cores

Com teu espelho
Ilumina nossa fronte
afugenta nossas dores

A tua beleza
para além da volúpia
sabedoria e bondade

Origem e morada
Oxogbo
Da Nigéria, o rio
Olhai por nós
Acalenta teus filhos

SER OU NÃO SER GAUCHE- Carlos Nogueira




Quando da porta entreaberta
brota um filete de sol
Lembro daqueles que permanecem
na escuridão

Cinqüenta e cinco passos
me separam
Após o muro,
pedra, musgo, solidão

A memória do mar
permanece na pele
Tatuagem de sonhos,
sagrados, segredo?
Talvez te revele

O vento caliente
parceiro presente
transmutado tempo
energia e orixá

Nas mãos do afeto
equilibra-se a Mãe Terra
O sol já se fez pleno
Malandramente
como um anjo barroco

Viver vale sempre a pena
dito assim
como se novidade fosse
Na poesia e na vida
Ser ou não ser gauche?

POEMA-ORAÇÃO À OXALÁ - Carlos Nogueira





És o nosso Pai
que tudo cuida
princípio de tudo
Senhor da criação

Seja mineral, animal ou vegetal
todos os reinos carregam o seu nome
Do brilho de sua brancas conchas
Metamorfoseia-se a branca pomba
mensageira da paz.

Mas não há paz sem justiça
Pai OXALÁ,
Por isso minha camisa amarela de poeta
hoje é branca e
as flores que a ti oferto por ti foram nomeadas
narciso, miosótis,
rosas brancas

Da sua união com Iemanjá
Nós, seus amados filhos
herdamos os Orixás
Nos guie e ilumine
Pai OXALÁ

Êpá Babá! Xeuê Babá!